Adeus 2019.
Viva 2020!

O último trimestre deste ano acabou por ser o corolário do que se foi verificando e esperando durante praticamente todo o ano de 2019, com o mês de Natal a presentear o mercado, por um lado com algumas surpresas, e por outro, a entregar aquilo que investidores e analistas já esperavam há algum tempo.


Durante este trimestre e começando pelo campo político temos:

Em Espanha , Pedro Sanchez ganhou uma vez mais as eleições, mas uma vez mais não conseguiu a maioria parlamentar que permitiria conseguir finalmente a estabilidade política desejável. Mais ainda, o parlamento ficou ainda mais dividido, aumentando assim a instabilidade governamental.

Na Alemanha , o SPD elegeu como líderes dois esquerdistas, críticos da actual coligação governamental, que faz aumentar o risco de uma crise no governo e de novas eleições para este ano de 2020.

Nos EUA , o “impeachment” continua, se bem que a possibilidade de destituição de Donald Trump é praticamente nula, já que os republicanos têm a maioria no Senado onde essa destituição terá de ser votada por maioria qualificada.

No Reino Unido , o Partido Conservador de Boris Johnson ganhou as eleições antecipadas e conseguiu a almejada maioria (365 assentos face a 325 necessários), levando a uma maior estabilidade política do que aquela que se fazia sentir no governo anterior.


Os bancos centrais continuaram na senda de descida de taxas de juro. A regra foi de corte de taxa de juro, a excepção que a confirmou veio da Suécia, com o mais antigo banco central do mundo, o RiksBank, a retirar a sua taxa de referência de terreno negativo e levando-a de novo para os 0%.

Nos EUA continuamos a assistir a pressões de Donald Trump sobre Jerome Powell , que apesar de ter cortado durante este ano 75 pb na taxa dos Fed Funds, foi acusado de ser responsável pela não tão boa performance económica norte-americana que o presidente dos EUA gostaria de poder mostrar.

No Banco Central Europeu assistimos à despedida de Mario Draghi . O seu legado deixa uma acérrima defesa do euro e da União Europeia, quando no inicio do seu mandato, o mercado financeiro colocava em dúvida a dívida soberana de muitos dos estados europeus como Portugal, Espanha, Itália, Grécia, etc., a viabilidade da União Europeia como tal e ainda da moeda única, convenceu investidores de que a economia não estava tão mal como parecia e disse, “no nosso mandato, o BCE está pronto para fazer o que for necessário para preservar o euro. E acreditem em mim, será o suficiente”. Posteriormente fez jus às palavras proferidas na altura e fez de facto tudo para suportar a recuperação económica europeia, a sua credibilidade assim como a sua moeda.
O BCE terminou entretanto o ano com novo timoneiro, Christine Lagarde , ex Directora Geral do Fundo Monetário Internacional. Sem experiência enquanto banqueira central, mas uma negociadora nata e decerto capaz de colocar no mesmo sentido as várias vozes que no final do mandato de Draghi se começaram a distanciar.


O crescimento económico global durante o ano de 2019 ressentiu-se em forte medida pela guerra comercial que o presidente norte-americano encetou, em especial com a China, mas de uma forma generalizada com praticamente todos os seus parceiros comerciais.

Se nos EUA o crescimento económico continuou a ser uma realidade, na China o mesmo recuou um pouco e a Europa mostrou e mostra fortes dificuldades para voltar ao crescimento desejável. Ainda assim, com forte ajuda por parte dos bancos centrais que continuam com taxas de juro historicamente baixas e/ou a manterem instrumentos extraordinários de suporte à economia (quantitative easing), a recessão continuou a ser apenas um receio e a ficar fora das previsões dos analistas para um futuro próximo.

As principais razões apontadas para a falta de crescimento a nível global derivaram da instabilidade criada pela guerra comercial entre a China e os EUA e ainda pela indefinição do Brexit.

Na frente britânica, com Boris Johnson a vencer categoricamente as eleições no Reino Unido , a saída da Grã-Bretanha da União Europeia a 31 de Janeiro é agora uma realidade. Ainda assim será apenas o fim do início do Brexit, já que as negociações sobre o futuro relacionamento entre as partes estão só a começar e o receio de um “hard brexit” a ressurgir depois de Johnson marcar bem a posição britânica de efectivar esta saída em finais de Junho, o que parece fisicamente impossível de conseguir os acordos necessários em tão pouco espaço de tempo.

Na frente norte-americana o ano terminou com o anúncio de um compromisso de assinatura do acordo “fase 1” entre os EUA e a China , entretanto já apontado para realizar no próximo dia 15 de Janeiro e com indicações de que já há avanços nos restantes pontos deixados para uma segunda fase.

A juntar a tudo isto assistimos ainda a resultados empresariais sólidos , principalmente das empresas norte-americanas, resultados acima do esperado na generalidade das empresas, isto apesar de toda a instabilidade a que assistimos.


Os mercados accionistas , apesar de uma volatilidade acrescida durante o ano, terminaram em fortes valorizações. Em média, os principais índices norte-americanos ganharam durante 2019 cerca de 30%, com o S&P 500 que conta com as maiores empresas norte-americanas a avançar cerca de 29%. Na Europa, o índice alemão DAX registou uma valorização em torno de 26%, sensivelmente o mesmo que o Euro Stoxx 50. Em Portugal, o PSI 20 também registou ganhos, embora mais modestos, avançando cerca de 11%.

Já no mercado cambial , o euro face ao dólar terminou cerca de 2% abaixo do valor de início do ano, depois de ter chegado a cair cerca de 5%. Face à libra, perdeu perto de 6%, depois de ter ganho perto de 4%. Contra o iene japonês recuou cerca de 3%, depois de ter perdido cerca de 6%.


Apesar de vermos ultrapassados alguns dos entraves que se registaram durante o passado ano de 2019, os desafios continuam a manter-se .

Donald Trump continua longe de terminar a sua guerra comercial . A “fase 1” com a China, como lhe chamou, parece estar a chegar a bom porto, no entanto ficaram de for a todos os temas mais quentes entre ambas as superpotências.

O Reino Unido tem agora um governo maioritário, e como tal, maior estabilidade política e certeza da entrega do brexit, mas a que custo? Iremos ter uma saída disruptiva, sem acordos prévios que garantam uma transição suave entre ambos os blocos?

Outro tema que está na cabeça de todos prende-se com as Eleições Presidenciais norte-americanas a terem lugar em Novembro. Até que ponto poderão influenciar o comportamento, já de si “imprevisível” de Donald Trump?

O ano está agora a começar e a primeira preocupação a nível geoestratégico já se faz sentir. O ataque norte-americano que vitimou o general Qassem Soleimani, chefe da força de elite iraniana Al-Quds e um dos homens mais populares do Irão, respondendo ao ataque à embaixada dos EUA em Bagdad, está a colocar de novo o Médio Oriente no centro de todas as atenções e preocupações.