Entre Trump e Bancos Centrais

Começamos como terminamos o segundo trimestre:
Não queríamos um escalar das tensões no Médio Oriente, nem ameaças de tarifas para a Europa e nem um hard brexit.


Infelizmente as tensões no Médio Oriente voltaram a estar bem no centro das atenções dos investidores, sempre com o Irão como protagonista.
Um ataque vindo do Iemen, reivindicado pelos rebeldes houthis, às instalações petrolíferas sauditas, além de levar a fortes receios de disrupção da oferta petrolífera a nível mundial, acabou por levar a fortes tensões nesta área geográfica, com os EUA e a Arábia Saudita a apontarem de imediato o dedo ao Irão, que são conhecidos apoiantes dos rebeldes houthis.

Donald Trump não só ameaçou como acaba mesmo por impor tarifas a produtos europeus no valor de 7,5 mil milhões de euros, depois da Organização Mundial do Comércio (WTO na sigla germânica) lhe ter dado razão numa contenda de quinze anos que opunha os EUA à Europa em torno dos subsídios concedidos respectivamente à Boeing e à Airbus.
Donald Trump irá avaliar se colocará tarifas sobre o sector automóvel europeu durante o próximo mês de Novembro.

Entretanto no Reino Unido estamos a pouco menos de um mês para o “brexit” que se continua a esperar com acordo.
Boris Johnson levou a um forte aumento dos receios em torno de um hard brexit, suspendendo mesmo o Parlamento britânico. No entanto, os parlamentares conseguiram aprovar uma lei que obriga o Primeiro-Ministro a pedir uma extensão do brexit, caso não se chegue a um acordo afastando fortemente para já a possibilidade de um hard brexit.
Entretanto, aumentou a possibilidade de eleições antecipadas no Reino Unido, depois de Boris Johnson perder a maioria parlamentar. O resultado dessas eleições poderá, ou não, colocar de novo em jogo a possibilidade de um brexit sem acordo.

Este terceiro trimestre até começou bem, com Xi Jinping e Donald Trump, na cimeira do G20 em Osaka, a comprometeram-se a trabalhar com base na igualdade e no respeito mútuo.
Mas este cessar-fogo durou cerca de um mês, quando abruptamente, sem nada o fazer esperar, Donald Trump voltou à carga com novas tarifas e colocação de empresas chinesas em lista negra e com a China a responder com suspensão de compras aos EUA e colocação de empresas norte-americanas também em lista negra.

O trimestre foi caracterizado por um regresso a estímulos por parte de diversos bancos centrais, com especial destaque, como sempre, para o Banco Central Europeu e para a Reserva Federal norte-americana.
Com excepção do Norges Bank (Noruega) que continuou na sua política restritiva e voltou a subir a sua taxa de juro em 25 pb, praticamente todos os outros bancos centrais enveredaram por cortes nas suas taxas de juro ou, na pior das hipóteses, mantiveram as mesmas mas tiveram comunicações de seguida que apontam para cortes caso as duras condições económicas globais se mantenham.
Banco do Japão, Banco de Inglaterra, Banco Nacional da Suíça, Reserve Bank of Australia, Banco do Canada todos mantiveram taxas.
Já a cortar taxas estiveram o BCE, o Fed, o Banco do México, o Reserve Bank of New Zealand, o Banco do Brasil, o Banco da India, o Banco da Indonesia e estou certo que faltará mencionar ainda algum.
Destes o BCE além de cortar a taxa de depósitos em 10 pb, levando-a para um mínimo histórico a -0,50%, lançou de novo a sua política de compra de activos e um sistema de níveis de taxas de juro para não colocar tanto peso na banca e abre desta forma a hipótese a mais cortes na taxa de juro se necessário.
Já a Reserva Federal norte-americana, para muita pena de Donald Trump, apesar de cortar a sua taxa de juro em 25 pb pela primeira vez em mais de dez anos, apontou para um corte de meio de ciclo e não para uma inversão da sua política de subida de taxas de juro que vinha a ser implementada há cerca de um ano.

Mas nem mesmo todos estes estímulos fizeram com que se alterasse o sentimento no seio dos mercados financeiros e dos investidores que continua a ser impactado pelos fracos números macroeconómicos principalmente na Europa, o arrefecimento do crescimento económico na China e o recuo também nos EUA, no final do trimestre.
Desde as tensões geoestratégicas (Irão, Coreia do Norte etc.) aos temas quentes no campo político-económico como o brexit e impeachment do Presidente dos EUA e ainda o escalar de políticas proteccionistas que acabam em guerra comercial (EUA-China, EUA-EU, Coreia do Sul-Japão) levaram com que os mercados accionistas continuem a negociar em volatilidade acrescida e tenham terminado o terceiro trimestre praticamente aos níveis de abertura do mesmo.
Já o mercado obrigacionista foi alvo de interesse por parte dos mercados levando o mesmo a ganhos e as respectivas yields a novos mínimos.
No mercado cambial as divisas chamadas de refúgio continuam a ser as preferidas por parte dos investidores, com especial destaque para o dólar norte-americano que terminou o trimestre em fortes ganhos com o índice do dólar em níveis que não se verificavam desde Maio de 2017.

O próximo trimestre promete mais volatilidade mas por outro lado alguma resolução, nem que seja temporária e/ou parcial dos temas quentes.
O inquérito em torno do impeachment de Donald Trump deverá trazer alguma luz sobre todo o processo nestes últimos meses do ano.
O brexit ou acontecerá mesmo a 31 de Outubro, ou iremos ter de novo um adiamento o que levará de novo alguma acalmia à libra e aos mercados accionistas e obrigacionistas britânicos e mesmo europeus (excluindo claro a catástrofe que seria uma saída sem acordo).
As negociações comerciais dos EUA com a China poderão voltar a ter algum acordo temporário e pelo menos um abrandar das tensões entre os dois países.
Vamos ver o que o Pai Natal nos trará no final do trimestre que só agora começou.